Prêmio de Jornalismo: Especialista da USP dá dicas para quem vai participar

Prêmio de Jornalismo Científico José Marques de Melo segue com inscrições abertas até o dia 31 de maio

O doutor em comunicação Ricardo Alexino compartilhou suas experiências e reflexões com profissionais e estudantes de Alagoas, em oficina gratuita. Adailson Calheiros

 O Prêmio de Jornalismo Científico José Marques de Melo segue com inscrições abertas até o dia 31 de maio. O Governo de Alagoas já promoveu duas capacitações para os interessados em produzir material jornalístico sobre Ciência, Tecnologia e Inovação (novembro de 2016 e março de 2017).

 “Sabemos que não é uma tarefa fácil. Exige uma dedicação especial do profissional do jornalismo, abordar temas científicos, ou mesmo relacionados à inovação. Mas estou certo de que com as capacitações que promovemos, trazendo palestrantes, estamos oferecendo um bom apoio para que tenhamos ainda este ano, grandes trabalhos premiados”, explica o secretário de CT&I, Pablo Viana.

 Um destes palestrantes foi e pesquisador Ricardo Alexino Ferreira, professor a da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), com vasta atuação em jornalismo científico no rádio.

 Partindo do básico, ele começa alertando que nas reportagens voltadas à ciência, da mesma maneira que em relação aos outros assuntos, o sensacionalismo não é uma boa ideia: “O jornalista muitas vezes acha que a espetacularização da informação vai garantir a audiência, mas assim ele pode trazer danos sociais irreparáveis, pânico, precipitações”.  Por exemplo, numa matéria sobre desastres naturais, como tsunamis ou meteoros, o repórter deve ter cuidado ao enfatizar algo que se trata apenas de hipóteses e probabilidades estatísticas.

 Ouvindo o outro lado

Mais um aspecto relevante comentado pelo radialista, que entrevista cientista de diversas áreas em seu programa na Rádio USP, é o de como lidar com a posição de “autoridade” que o pesquisador adquire em um assunto. O fato de uma pesquisa fornecer dados consolidados não significa que abordagens e opiniões contraditórias estejam fora da pauta:

 “Para cobrir o contraditório, não necessariamente precisa ser alguém que está falando contra aquilo que está sendo colocado, mas outros pontos de vistas, mesmo falando algo que se aproxima muito da fonte principal. É importante ter mais de uma fonte, não só por constar, mas contribuir para que a matéria possa se tornar mais robusta”, explica.

 Este caso, Alexino ilustra com o exemplo hipotético de uma matéria onde as fontes primárias sejam de ciências biológicas ou geológicas. O repórter poderia ouvir um pesquisador de ciências humanas, com credenciais acadêmicas do mesmo nível:

 “Um sociólogo ou antropólogo poderiam comentar como aéreas que ficam alagadas ou desérticas interferem nas culturas humanas. Então, quanto mais profissionais e mais pesquisadores ele traz para dentro do debate, mais robusta a pauta dele vai ficando”, exemplifica o professor.

 Contexto

Para Alexino, outro fator que faz toda diferença é que o repórter entenda os métodos que os cientistas utilizam para chegar as suas conclusões: “O cidadão não pode achar que a sua fonte fez uma magia e surgiu o resultado da pesquisa”, aponta. Ele acha que para o jornalista que cobre CT&I, formar o próprio repertório é fundamental.

 “Eu gosto muito de pegar aquilo que a pessoa já produziu, um artigo ou algo assim, que dá base para a entrevista. Se você vai entrevistar alguém que fez uma pesquisa fechada básica, fechada, mais dura, se você leu o material isso possibilita um diálogo maior com a sua fonte”.

 “De ponta”

Outra coisa, é que mesmo nas pautas de inovação é necessário conhecer um pouco de História. Seja história da ciência, seja a história de uma solução tecnológica:

 “Todos correm atrás do que é novo e, ao final, todos estão falando sobre a mesma pesquisa. Então, eu acho que às vezes vale usar a História da Ciência”, discorre Alexino. Neste sentido, pode acontecer que o resultado mais atual nem sempre seja o mais relevante, ou que o próprio desenrolar histórico de uma descoberta faça render a matéria ou se torne o seu lado mais interessante.

 O ético…

Muito se fala em “objeto de pesquisa”, e o professor Ricardo traz um conceito útil para que o jornalista ajuste o foco de sua própria perspectiva: “Suponhamos que o pesquisador vai desenvolver pesquisa sobre a população de moradores de rua. É necessário ele pensar do ponto de vista ético. Pessoas não são objetos. Pessoas são pessoas. Elas são sujeitos, então é mais interessante esse jornalista falar em sujeito da pesquisa”.

 Ele defende que isto é importante porque, às vezes, é possível para o comunicador humanizar uma situação que para o método científico, traduz-se de maneira “fria e distante”. O ponto é que apesar de pesquisas com gente utilizarem grupos bem definidos e métodos claros, seres humanos podem mudar de uma hora para outra. E, neste caso, os resultados do estudo também? Cabe ao jornalista indagar.

 … e o estético.

“Matérias de ciências não ser podem minúsculas, tipo 700 caracteres já resolve”. Neste caso, ele indica que o ideal é utilizar recursos mais lúdicos para aproveitar a complexidade característica de certos temas, como boxes, recursos gráficos, imagens e infográficos. De acordo com Ricardo Alexino, tudo isso auxilia jornalistas e editores a desenvolverem o contexto.

 O Prêmio de Jornalismo Científico José Marques de Melo também inclui uma categoria especial, para contemplar o melhor trabalho sobre o bicentenário da emancipação política de Alagoas. Mais informações em http://www.premiojornalismocientifico.al.gov.br.

Ascom

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