Cúpula da H.Stern fecha acordo de delação premiada com MPF

Presidente, vice-presidente e dois diretores concordaram em pagar multas que somam R$ 18,9 milhões

A cúpula da rede de joalheria H.Stern fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF) para revelar detalhes do esquema de lavagem de dinheiro do grupo que seria liderado pelo ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB). O acordo envolve o presidente da joalheria, Roberto Stern; o vice-presidente, Ronaldo Stern; o diretor financeiro, Oscar Luiz Goldemberg; e a diretora comercial, Maria Luiza Trotta. Eles concordaram em pagar multas que somam R$ 18,9 milhões.

As investigações do MPF apontam que parte da propina recebida por Cabral era usada para comprar joias, principalmente na H.Stern e na Antonio Bernardo. Inicialmente, o dono desta última joalheira havia sido convocado como testemunha de defesa do ex-governador, mas os advogados desistiram de ouvi-lo.

De acordo com as apurações, Cabral e a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo compraram cerca de 40 peças da H.Stern, totalizando R$ 6,3 milhões. A multa a ser paga pelo alto escalão, portanto, corresponde a três vezes esse valor. Os Stern pagarão R$ 8,95 milhões cada um, enquanto os diretores vão desembolsar R$ 500 mil cada. Na Antonio Bernardo, que não tem nenhum tipo de acordo para relatar o esquema, o ex-governador e Adriana compraram 460 peças totalizando cerca de R$ 5,7 milhões.

Maria Luiza já prestou depoimento, como colaboradora, no processo da Operação Calicute em meados de março. Na ocasião, disse que uma joia, de R$ 1,2 milhão, foi paga em dinheiro vivo, por meio do operador Carlos Miranda, amigo de Cabral. Depois, ela trocou a joia de R$ 1,2 milhão por um brinco de diamante canário no valor de R$ 1,8 milhão. A diferença, de R$ 600 mil, também foi paga em dinheiro vivo.

Segundo ela, Cabral sempre pedia que não fossem emitidas notas fiscais. A gerente da joalheria Antonio Bernardo no Shopping da Gávea, Vera Lucia Guerra, também disse em depoimento do processo da Operação Calicute que o ex-governador e Carlos Emanuel Miranda compravam com desconto e pediam para não terem as notas fiscais emitidas.

Quando a compra era feita por Adriana na H.Stern, às vezes eram emitidas notas, às vezes não. Uma compra foi paga em uma conta na Alemanha, a pedido do ex-governador.

– O Sérgio Cabral pediu para pagar uma venda no exterior, eu disse que não sabia se seria possível. Voltei, perguntei se seria possível, tive a resposta e voltei á casa dele com o número da conta. O pagamento foi feito na Alemanha, mas não sei como feito – afirmou Maria Luiza Trotta em depoimento.

A exemplo da Antonio Bernardo, a H.Stern só emitiu e entregou as notas ao MPF após a prisão de Cabral.

Na lista de joias compradas pelo grupo de Cabral entregue pela H.Stern ainda antes do acordo de delação, destacam-se um anel de outro branco de 18 quilates, com esmeralda, avaliado em R$ 342 mil; e um colar denominado Blue Paradise, no valor de R$ 229 mil. No mesmo dia em que foi preso, Cabral disse à Polícia Federal que “não se recorda” das compras atestadas por Maria Luiza, funcionária de carreira da joalheria há mais de 30 anos.

De acordo com o MPF, a quebra de sigilo telefônico dos envolvidos revelou que Carlos Miranda ligou 208 vezes para a gerente da loja Antonio Bernardo, Vera Lúcia Guerra. Os investigadores desconfiam de lavagem de dinheiro das joalherias com a compra de joias em troca de benefícios fiscais.

Cabral está preso em Bangu 8 desde novembro do ano passado, quando foi deflagrada a Operação Calicute. Adriana Ancelmo foi presa em dezembro, mas este mês conseguiu ir para a prisão domiciliar.

A H.Stern informou que não está dando declarações sobre o assunto à imprensa. O GLOBO aguarda retorno da defesa de Cabral e Adriana Ancelmo.

o globo

06/04/2017

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